terça-feira, 20 de fevereiro de 2007




INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo

Que raras deusas têm escutado -Aquele amor cheio de crença e medo

Que é verdadeiro só se é segredado?...Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.

Não foi um outro, porque não sabia.Mas quem roçou da testa teu cabeloE te disse ao ouvido o que sentia?Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?

Foi só qualquer ciúme meu de tiQue o supôs dito, porque o não direi,Que o supôs feito, porque o só fingiEm sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,

A teu ouvido vagamente atento,

Te falou desse amor em mim presenteMas que não passa do meu pensamento

Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,

A teus ouvidos de eu sonhar-te disse A frase eterna, imerecida e louca -

A que as deusas esperam da ledice

Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa

Um comentário:

Francisco Castro disse...

Olá, gostei muito do seu blog.

Parabéns!

Abraços