INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.Mas quem roçou da testa teu cabeloE te disse ao ouvido o que sentia?Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de tiQue o supôs dito, porque o não direi,Que o supôs feito, porque o só fingiEm sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presenteMas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa

Um comentário:
Olá, gostei muito do seu blog.
Parabéns!
Abraços
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