terça-feira, 20 de fevereiro de 2007






ANÁLISE
Tão abstrata é a idéia do teu ser


Que me vem de te olhar, que, ao entreter


Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,


E nada fica em meu olhar, e distaTeu corpo do meu ver tão longemente,


E a idéia do teu ser fica tão rente


Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-meSabendo que tu és, que, só por ter-me


Consciente de ti, nem a mim sinto.


E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto


A ilusão da sensação, e sonho,


Não te vendo, nem vendo, nem sabendo


Que te vejo, ou sequer que sou, risonho


Do interior crepúsculo tristonho


Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa, 12-1911

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